Mariana Ferrão se emociona ao falar como voltar ao trabalho fez seu leite secar

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Amamentar não é tão simples para algumas mamães. Muitos bebês têm dificuldade na pega, o que faz com que o processo de adaptação da mãe seja dificultado.

O fim da licença maternidade é um desafio para muitas mãe. A volta às obrigações associada a outros fatores emocionais pode acabar prejudicando a produção de leite materno.

Mariana Ferrão, apresentadora do programa Bem Estar, da Rede Globo, sentiu na pele tudo isso com o seu primeiro filho, Miguel, que hoje tem 3 anos, e escreveu um desabafo emocionante.

Marina também é mãe de João, que tem quase 1 ano. Confira a seguir o desabafo da apresentadora:

“Este é o texto que não tive coragem de escrever para o Miguel.

Eu estava de luto.

Perdi as contas de quantas vezes chorei ao deixa-lo na escola. De uma hora para a outra – o dia vazio. Tudo cabia naquelas horinhas vagas. Mas vontade mesmo de fazer alguma coisa, eu não tinha. Estava me preparando para a volta ao trabalho. Era um ajuste da rotina, mas mais do que isso, parecia um treino para uma maratona emocional.

Como seria voltar ao trabalho com um coração dividido?

Como seria voltar ao trabalho com os seios doloridos de leite, e os mamilos me avisando a horinha que ele estava com fome?

O Miguel já pegava mamadeira. Algumas amigas tinham me falado que isso facilitaria muito o meu retorno à rotina.

Mas ninguém me disse que a saudade doía no corpo.

Uma semana antes de voltar peguei dengue pela segunda vez. Foi a pior dor que já senti. A sensação de um ferro de passar roupa pressionando punhos e tornozelos. Febre de quase 40 graus por dias. E não queria ficar na cama. Queria aproveitar os últimos dias com ele. Meu maior medo era ter de parar de amamentar por causa da doença. Mas meu clínico geral disse que eu poderia continuar. O desgaste físico aumentava com a amamentação, mas eu sentia que era o que eu tinha que fazer. Afinal, que culpa aquela criaturinha tinha de eu não estar me sentindo bem? Já eu, tinha todas as culpas do mundo.

Tive de adiar em uma semana a volta ao trabalho e isso só aumentou ainda mais a minha insegurança. Os planos feitos durante a licença aterrados por algo que me deixava imóvel de tanta dor, presa à cama.

Chorei várias vezes no banheiro da Globo. Medo de não ser mais necessária ali. Medo de não conseguir fazer tão bem o meu trabalho. Medo de estar sendo negligente como mãe. Medo. Medo. Medo.

Eu chegava em casa e o que mais queria era por o Miguel no peito.

Sentir aquela conexão inabalável e a certeza de que ali eu estava no lugar onde tinha que estar. Sentir que alguém realmente precisava de mim.

Mas o estresse estava secando meu leite.

Os peitos murcharam e o Miguel, sempre glutão, começou a não querer mais mamar. Enquanto ele virava o rosto, eu inclinava meu queixo pra cima na tentativa de conter as lágrimas.

Insisti por um mês naquela luta na cadeira de amamentação. Quando ele tinha 8 meses, desisti. Pedi para meu marido filmar a última vez que ele estava mamando no meu peito.

Era o registro de todo o amor e de todos os medos juntos. Eu tive muita sorte em ter alguém que me orientasse desde o princípio na amamentação. Meus seios quase não racharam, meu leite desceu rápido, ele pegou fácil e, tirando, a dor nas costas, o desconforto físico foi quase nulo. Mas eu tive todos os medos do mundo – medo de não ser suficiente, de não ter leite, de ele não engordar o quanto deveria, de não voltar a tempo da manicure para a próxima mamada, medo de não o ouvir chamar de madrugada, medo de deixa-lo com fome, medo de ele não querer mais. Qdo todos os medos começavam a se equalizar, meu leite secou. Pra mim, a amamentação começou a ficar gostosa depois que ele passou a comer bem a papinha. O leite já não era essencial para mantê-lo vivo, mas era aquele momento mais puro, mais íntimo em que realmente só nós dois existíamos no mundo. O olho no olho. As conversas balbuciadas. O encontro visceral de sons e cheiros de dois corpos encostados.

Eu pensei que tudo acabava ali. O luto ficou represado. Não consegui conversar com ninguém sobre o fim da amamentação. Não consegui escrever nenhuma linha sobre o que estava sentindo. Guardei a dor e o medo de a história se repetir.

Quando o João nasceu, coloquei na cabeça que queria amamenta-lo pelo menos até um ano.

Os primeiros dias com ele não foram fáceis. Aparentemente ele era mais preguiçoso pra mamar. Uma enfermeira foi até a minha casa e disse que eu precisava segurar a boca dele, fazer algumas manobras, apertar meu peito enquanto ele sugava para que ele conseguisse mamar mais.

As mamadas eram verdadeiros suplícios. Fui ao pediatra e ele não estava engordando o quanto deveria. Não estava perdendo peso, mas também não estava ganhando o tanto ideal.

Por um momento pensei em me desesperar.

Depois lembrei de tudo. Lembrei, na verdade, de mim.

Eu já sabia o que era ser mãe. Simplesmente ser. Não ter que fazer nada. Apenas confiar naquilo que sentia, os meus instintos que me diziam ferozmente que tudo aquilo estava errado, que a amamentação tinha que ser boa para nós dois.

Deixei todas as manobras de lado e deixei ele ficar no peito o quanto quisesse, mesmo que dormisse no meio da mamada. Parei de ter vergonha de amamentar em público e, pela primeira vez, entendi que a livre demanda era na verdade, a maior liberdade que uma mãe pode ter. Se o bebê mama quando quer – não há hora marcada – é possível encher a barriga a qualquer momento para poder planejar a depilação ou o sacolão, por exemplo.

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João demorou mais a engordar que o Miguel. E quem disse que os irmãos têm que engordar igual? Em que manual está escrita esta regra?

As mamadas com o segundo filho, especialmente quando o primeiro está em casa, são diferentes. Elas perdem a calma, ganham abraços de urso e também pitadas de ciúmes declaradas ou não. Quando o João dormia no peito, Miguel sempre falava: “Tá vendo, mamãe, ele não quer mais”. Por isso eu fiz questão de voltar muitas tardes pra casa para amamentar o João enquanto o Miguel estava na escola, mesmo depois que ele já tinha completado um ano.

Sim, desta vez o estresse não me pegou. Eu já sabia como seria voltar. Mais do que isso, sabia que o mais importante da volta não era o que eu ia encontrar, mas o que eu já tinha encontrado dentro de mim.

Lá pelo quinto mês da licença, eu estava muito cansada. João ainda estava acordando muito de madrugada e quando chegava da escola, o Miguel queria toda minha atenção.

Senti novamente que o volume de leite estava diminuindo. Tive medo de não conseguir seguir adiante com a amamentação; mas decidi que por mais cansada que estivesse, ia tirar um tempo pra mim. Ia voltar a meditar todos os dias. No dia seguinte da primeira meditação, consegui encher em meia hora uma mamadeira de 150ml com a máquina de ordenha – o que pra mim é muito, já que minha produção de leite nunca foi extraordinariamente grande.

E desta vez eu conversei muito com as amigas sobre meus medos, pedi orientação pra quem entende do assunto, para quem participa de grupos de mães.

Me acolher e ser acolhida foi fundamental.

Há três meses, depois da minha série sobre meditação no Bem Estar, fiquei muito cansada. Peguei uma dor de garganta que não passava. Depois de tomar antibiótico, corticoide e anti-inflamatório, a dor continuava lá. Cansei de ouvir de médicos que deveria parar de amamentar, que já estava bom, que ele já não precisava mais, que o desgaste físico da amamentação estava judiando do meu corpo.

Mas eu não queria parar.

E a dor não parava também. Um mês depois, ela havia mudado de lugar. Estava mais baixa, bem na base do pescoço, entre as clavículas. Liguei para o meu médico e ele me pediu para ir até lá: “Preciso apalpar a sua tireoide”. Me pediu um ultrassom e alguns exames de sangue. “Você está com tireoidite viral”. Mesmo há seis anos no Bem Estar, nunca tinha ouvido falar naquilo. Ele explicou: “Qualquer vírus pode atacar a tireoide. A sua imunidade está baixa e o chato é que não dá pra saber quanto tempo este desconforto vai durar”. O desconforto incluía além da dor, variações incríveis de humor que me fizeram pensar que estava novamente à beira de uma depressão, dor nas articulações, muita fome, cansaço, dificuldade para dormir, calor extremo, como se estivesse na menopausa.

“Os remédios são apenas para amenizar os sintomas. A gente tem que esperar e repetir os exames.”

Tomei os remédios por 10 dias e depois disso decidi que ia aguentar os sintomas, dar tempo ao tempo.

Na primeira semana das férias, ainda estava sentindo tudo. Fui dar uma palestra em Goiânia e emendei 3 dias em Alto Paraíso, no ashram do Prem Baba.

O máximo de tempo que já tinha ficado longe do Miguel e do João era uma noite para fazer o Bem Estar Global. Mas eu estava precisando daquilo, sentia que ia ser bom pra mim.

Tirei leite na pia, no banho… Os peitos doloridos, entumecidos novamente.

Eu queria parar de amamentar nas férias, antes de ele começar na escola, pra fazer uma coisa de cada vez; mas não queria sumir por 4 dias e deixar o peito desaparecer de uma vez, só pela distância física.

Quando voltei pra casa, minha sogra abriu a porta com o João no colo. Ele me olhou meio desconfiado por uns dois segundos, depois escancarou aquele sorriso divino e disse: “Mama, Mama” – é assim que ele me chama e é assim que ele fala quando quer mamar.

Miguel saiu correndo e veio abraçar a gente. “Abraço triplo, eeeee”- Miguel completou.

Ficamos abraçadinhos uns segundos eternos e depois fui dar de mamar para o João.

Respirei fundo agora de lembrar do momento – o escurinho do quarto, a pele macia, o pijama quentinho, a almofada debaixo do braço, a respiração de um e de outro aos poucos entrando no mesmo ritmo.

Dois dias depois o Miguel foi me acordar dizendo que o João já tinha acordado.

“Filho, vai até lá e diz pra ele que já estou indo”.

Quando cheguei ao quarto o Miguel estava distraindo o João no berço com aquela vozinha doce dos irmãos mais velhos quando falam com os pequenos quando ninguém está por perto.

Eles estava ótimos. Pareciam mais unidos depois da minha pequena ausência.

Peguei o João no colo e ele disse: “mama, mama”.

Percebi que meu peito estava vazio. Ele tentou sugar. Disse: “ma”- querendo mais.

Mudei ele de peito. Não resolveu.

“Filho, acho que o leite da mamãe tá acabando”.

Miguel fez um cafuné que penteou todo o cabelo que João ainda não tem: “Não tem mais nada aí, Pupão.” João olhou para o irmão com um olhar suave, tranquilo. Olhou pra mim. Só senti meus olhos refletirem a doçura da cena.

João levantou do meu colo e foi brincar com o irmão na sala.

Depois nós três tomamos café da manhã juntos”.

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